Já conhece a GRIGI?

Ao longo do ano e meio deste blog tive o prazer de entrevistar alguns designers. Desta vez tive o privilégio de entrevistar uma amiga e isso faz, como seria de esperar, uma enorme diferença. Conheci a Mónica Gonçalves no Moda Lisboa Ever.Now. pelas “mãos” da Adelaide Nunes e ficou a promessa de uma entrevista.

Contar a história da marca é contar a história da Mónica, e não poderia ser de outra forma. Quando lhe peço que me conte como nasceu a GRIGI, os seus olhos brilham. Soa a cliché, mas o especial é que esta fase de enamoramento com a sua arte parece um romance que acabou de começar. Foi no curso da MODATEX, como que por magia e sob pressão académica para criar a sua marca, que num dos corredores do C.C. Colombo “esbarrou” com uma banca de malas e acessórios de cortiça e pensou:

Este material é tão bom e só usado assim… Que é que eu posso fazer com este material? Malha! Malha? Fio? Fio! E foi assim que começou! Levei a ideia ao Professor que adorou! Participei no Portugal Fashion para ter um feedback mais realista e ganhei o primeiro lugar e foi ai que percebi que esta malha tinha algum, ou bastante, potencial!

Grigi_TheConfashionary

A necessidade de criar mais peças levou ao aparecimento de pontos de venda e consequentemente à criação de uma marca, GRIGI, cujo significado simbólico em Italiano é a força interna que suporta males externos. Um significado mais que adequado para o período de crise em que muitas portas se fechavam e a Mónica decidiu começar por abrir uma janela de cortiça para um novo universo criativo de design onde pôde aplicar os conhecimentos adquiridos em Portugal e em Itália, pondo à prova a si mesma e ao percurso ainda embrionário em Portugal do Design Sustentável.

Eu sou mesmo muito fiel à questão do 100% natural. Mesmo! Ao ponto de procurar que todos os elementos, até simples fechos, respeitem essa questão. Nesse processo de criação vamos fazendo estudos com o fio, tecidos, colorações, elasticidades e assim vamos definindo por onde ir, o que de novo explorar. É uma aventura diária, mas que vale sempre a pena.

TC: E onde é que fazem esses testes, experimentações?

MG-GRIGI: Faço aqui no Atelier, sozinha, vou experimentando e brincando e só quando começo a chegar a algum resultado é começamos a fazer experimentações práticas em peças com o resto da equipa.

Com uma equipa ainda pequena e que vai gradualmente crescendo e permitindo uma especialização e foco nas várias áreas – malhas, lãs, linhos e cortiça – que a GRIGI tem abraçado, a alegria maior, diz a Mónica, cheia de orgulho, é o olhar para trás e lembrar-se de quando tudo passava só por ela e agora o seu sonho e visão dão trabalho e oportunidades a outros.  A isto chama-se dar a volta, e bem dada, à crise criativa!

Gosto muito da parte da confecção, mas por ser uma perfeccionista nunca estou suficientemente satisfeita com o que faço e entro em desespero (risos!). Esta é mesmo a parte que adoro, tanto que se pudesse andar outra pessoas nas entrevistas e nas revistas e deixarem-me aqui a coser eu preferia. Não gosto nada que me perturbem. Gosto mesmo muito da parte de confecção e de fazê-la em silêncio, completamente focada, no meu mundo!

E é no meio desta confissão apaixonada que a Mónica também partilha que ter uma empresa implica isso também; para crescer, aumentar a capacidade de produção e a equipa há que “abrir mão de passar a mão” por todas as peças. Afinal as dores de crescimento são uma constante!

Fizemos uma pequena viagem às primeiras colecções onde se vai notando uma evolução semi-consciente do estilo, das linhas e dos tecidos que se querem apresentar, usar e ter como essência da marca. Neste momento a escolha dos tecidos acontece no início e “deixando-os” falar, vão surgido as lindíssimas peças, como é o caso desta colecção primavera-verão cuja preocupação é como integrar o fio de cortiça no linho e algodão natural. Mas queremos saber mais…

TC: Como é definida colecção?

MR-GRIGI: Começo sempre por idealizar o mood que quero que a colecção tenha. Dou o exemplo do casaco tenda. Para mim a moda é um hábito de vida, não é só algo ditado por tendências passageiras. Ou seja, defino primeiro um estilo de vida e depois dele nasce a colecção. Por isso o cuidado com a escolha de tecidos 100% naturais. Por exemplo, quero que o casaco GRIGI seja, a nível de qualidade e conforto, algo que dura para toda vida. Não quero que os clientes GRIGI sejam consumistas, quero que comprem peças únicas e sustentáveis e que durem!

A paixão pela área de tecidos sustentáveis e sua utilização é algo que vem já da sua infância e que no tempo em Itália com um tutor que a acompanhou na viagem que a trouxe – e nos trouxe – a GRIGI que conhecemos hoje e que ainda está em construção. Felizmente, e apesar de em Portugal continuar a ser “novidade” a utilização de técnicas sustentáveis na produção e tratamento de materiais, a grande maioria dos materiais usados tem sido adquirida em Portugal e as barreiras que se encontram passam não por desconhecimento mas por falta de capacidade de produção.

Mas onde se inspira a Mónica Gonçalves para criar o seu quadro de imagens, de padrões, de linhas?

Gosto muito de ver imagens orgânicas, revistas com imagens de paisagens, ou de construção civil, imagens com muitas texturas. Às vezes nas pesquisas pela web adoro quando me aparecem imagens muito rígidas junto a areias e árvores e plantas. Não sigo as tendências só porque sim ou porque todos usam. Pego, deixo-me inspirar pelo que encontrar e que possa contribuir para aquela que é a imagem da GRIGI e que vai levar a colecção a evoluir.

Falámos da BioCouture, da Positive Luxury e da Beulah London, marcas e entidades que nos têm sensibilizado no que diz respeito à possibilidade de criar, usar e viver com materiais 100% naturais e sustentáveis.

Grigi_TheConfashionary

A questão da cor tornou-se uma pergunta obrigatória e sem qualquer problema a Mónica nos respondeu que dentro desta gama mais nude, mais natural, reconhece-se a necessidade de incluir o Preto em algumas das peças mais essenciais, como os casacos e trench coats. Dentro dos linhos e com o entrelaçado de fio de cortiça, poderá acontecer alargar a  gama de castanhos e cinzentos.

E da cartola das perguntas maravilha, salta mais uma: E se a GRIGI lançasse uma linha de vestidos de noiva?

A reacção da Mónica disse tudo “Sim! Sim! Eu adorava!” e com orgulho nos mostra a capa da deepArt onde aparece um vestido de algodão, com uma caixa de peito assimétrica, completamente drapeada, em organza natural à base de fio de seda e com o resto do vestido em godés armados. Por isso sim, a área de vestidos de noivas em tecidos naturais é algo que deixa a criadora da GRIGI claramente deslumbrada! (E a nós também!)

Grigi_Bride

TC: Tecidos 100% naturais, peças feitas à mão, peças limitadas e únicas… Qual é o senão? Preços?

MR-GRIGI: Sim. Mas esta não é uma questão da GRIGI, é uma questão transversal a todos os designers e/ou marcas que usam tecidos orgânicos, 100% naturais e optam por uma produção natural e sustentável dos tecidos. Portanto há ainda alguma necessidade de trabalho de sensibilização nesse campo.

O Objectivo da GRIGI?

Criar uma marca estável, uma marca que se destaque pela qualidade das suas peças mas também a qualidade desta abordagem de design e a sensibilização à utilização de tecidos sustentáveis e naturais que podem ir do prático e descontraído ao clássico e elegante. 

Nos 53 minutos de deliciosa conversa, pude ainda ouvir a Mónica explicar como é que o tecido é preparado, lavado e trabalhado; que tipo de tecidos são usados e como facilmente os distinguir e, no meio de muitas gargalhadas, encontrámos um pelo ruivo na lã deixado, por acidente, por uma ovelha, do Norte. Se quiserem pormenores destes, nada como visitar o atelier da GRIGI e entre uma compra e outra, a Mónica com a sua imensa simpatia explicará tudo.

Depois do nosso mágico encontro na edição Primavera-Verão do ModaLisboa , fica no ar a expectativa do primeiro desfile da marca na edição de Março, com propostas para a época mais fria que certamente nos vão deixar de queixo caído, como as deste ano que, como podem ver, me foram difíceis, quase impossíveis, de despir!

Obrigada GRIGI, Mónica e Equipa por nos abrirem as portas do vosso Atelier de sonhos de leveza e delicadeza sustentáveis!

Artigo da autoria de Petra Vaz com base na gravação de entrevista realizada a 18 de Dezembro de 2013 no Atelier da GRIGI em Lisboa e com fotografia de Carmo Braz Mimoso. Todos os direitos reservados ao The Confashionary.

Para saber mais, recomendo que visite as seguintes páginas e posts:

GRIGI: http://www.grigi.pt

Modatext: http://www.modatex.pt

DeepArt: http://www.deepart.pt/

Positive Luxury: http://www.positiveluxury.com/

Beulah London (leia a entrevista neste blog aqui): http://www.beulahlondon.com/

Bio Couture (leia o post sobre esta técnica, aqui): http://biocouture.co.uk/